A colheita do milho segunda safra em Mato Grosso voltou a escancarar um dos principais gargalos do agronegócio: a falta de capacidade para armazenar a produção. Em um ano marcado por chuvas fora de época durante a retirada dos grãos, produtores enfrentam filas nos armazéns, dificuldades no transporte e aumento do risco de perdas na qualidade do cereal.
O problema se reflete diretamente na rotina das propriedades. Com o escoamento mais lento e os armazéns operando próximos do limite, muitos agricultores precisam desacelerar a colheita ou buscar alternativas para não deixar o milho exposto às condições climáticas.
Em uma fazenda com 5.090 hectares cultivados com milho segunda safra em Santa Rita do Trivelato, quase metade da área já estava pronta para ser colhida. Mas, além de retirar o grão da lavoura, o desafio passou a ser encontrar espaço para armazená-lo.
O gerente de produção Edivandro Milani explica que a sequência de chuvas atípicas em junho alterou completamente o planejamento da fazenda. Com estradas em piores condições, caminhões demorando para chegar e o armazém sem capacidade para acompanhar o ritmo da colheita, foi preciso buscar uma “válvula de escape”. “Esses dias choveu 50 milímetros, depois deu 30. Ninguém esperava essa chuva nessa época. No armazém o suporte é pequeno, então precisa ir colhendo e tirando”.

Chuva aumenta pressão sobre a logística
Além de atrasar a colheita, a chuva compromete toda a logística da propriedade. O transporte fica mais lento, o fluxo entre a lavoura e os armazéns perde eficiência e o milho permanece mais tempo no campo.
“Com chuva piora porque a estrada fica ruim, caminhão não vem, o processo de colheita enrola. Tudo é mais difícil”, relata Milani ao Patrulheiro Agro.
Ele conta que a situação não era vista havia vários anos. Enquanto as colheitadeiras trabalham apenas durante o dia, a estrutura de armazenagem opera ininterruptamente em quatro turnos para receber a produção. Ainda assim, a capacidade não acompanha o volume retirado das lavouras. “Há muitos anos que a gente não via isso. Hoje todo mundo está querendo tirar o produto, então é caminhão para todo lado. Muitas vezes a gente se obriga a jogar no tempo porque o armazém não suporta”.
Com o milho permanecendo mais tempo na lavoura, cresce também a preocupação com a qualidade dos grãos. Conforme Milani, as espigas ficam mais suscetíveis à entrada de água, o que pode elevar o índice de avarias. “Começa entrar chuva pela ponteira se ela não fecha direito e começa a acumular embaixo. Já tem danos nos primeiros plantados. Tem carga que não dá nada e tem carga que sai com 5%, 8%, 10% de avariado”.

Estrutura na fazenda faz diferença
A umidade elevada também aumentou os custos para quem precisa secar o milho antes da comercialização. O presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum, Paulo Zen, afirma que muitos produtores consumiram rapidamente toda a lenha reservada para esta safra, enquanto o preço do cavaco também subiu.
“Há relatos de produtores que já chegou em 60% o consumo na sua propriedade e já gastou toda a lenha que ele tinha feito toda a safra o ano passado. O custo hoje do cavaco subiu 40%”.
Mesmo com esse gasto adicional, quem possui estrutura própria consegue reduzir parte dos impactos. De acordo com Zen, secar e beneficiar o milho dentro da fazenda permite iniciar a colheita mais cedo, estender o trabalho por mais tempo e entregar um produto com melhor qualidade. “Agora o pessoal que tira da lavoura e leva direto para empresa, além da umidade, as impurezas que no final vira um grande desconto”.
Em Santa Rita do Trivelato, onde a família Batistela cultivou 1.410 hectares de milho nesta segunda safra, o agricultor Enéas Gláucio Batistela afirma que a falta de armazenagem se repete em grande parte dos municípios produtores do estado. Em anos de chuva durante a colheita, o problema se agrava e as filas aumentam.
“A maioria dos municípios do interior tem dificuldade e déficit de armazenagem, e Santa Rita do Trivelato não é diferente. Você pega um ano igual a esse, chovendo, umidade no milho, avariado, as filas dos armazéns só aumentam”, pontua à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Na avaliação dele, ampliar a armazenagem dentro das propriedades depende de linhas de financiamento de longo prazo. “Hoje precisaria uma condição de financiamento a longo prazo para produtores, incentivo do governo federal para construção de armazém. A maioria dos produtores não têm armazém ainda”.

Produção cresce acima da infraestrutura
O déficit de armazenagem também preocupa produtores em Sorriso. Conforme o presidente do Sindicato Rural, Diogo Damiani, mesmo com a ampliação das estruturas nos últimos anos, elas continuam insuficientes para atender a demanda. “Apesar de termos as maiores construção de armazéns na região, nós produzimos quase 4,5 milhões de toneladas e não temos onde armazenar todo esse produto”.
Damiani avalia que o acesso ao crédito continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar essa estrutura. O presidente do Sindicato Rural frisa que a burocracia das linhas do Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) e as dificuldades envolvendo o licenciamento ambiental acabam desestimulando novos investimentos. “A gente precisa de um trabalho conjunto para que o produtor tenha acesso a essas linhas de armazenagens e consiga taxas de juros também adequada”.
Para o presidente da Aprosoja Brasil, Lucas Costa Beber, a armazenagem precisa deixar de ser tratada apenas como uma demanda do setor produtivo e passar a integrar uma política de governo. “A armazenagem deve ser uma política de governo, não só do setor agropecuário, já que é estratégico para segurança alimentar e também para a comercialização”.
Beber lembra que a previsão é de uma safra brasileira de cerca de 360 milhões de toneladas, enquanto a capacidade de armazenagem permanece muito abaixo da necessidade. Esse descompasso, afirma, pressiona o escoamento da produção, reduz os preços recebidos pelos produtores durante a safra e contribui para o aumento do frete. “Há uma supervalorização nos fretes no pico da safra, o que acaba desvalorizando ainda mais a nossa produção”.
Além da deficiência de armazenagem, o setor estima que Mato Grosso deixe de movimentar mais de R$ 8 bilhões por ano devido à falta de concorrência no transporte ferroviário.

Silo bolsa ganha espaço
Enquanto os investimentos em infraestrutura não acompanham o crescimento da produção, alternativas de armazenamento dentro das próprias fazendas vem ganhando força. O uso do silo bolsa tem se consolidado como alternativa para aliviar a pressão sobre os armazéns tradicionais durante a colheita.
O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Cleiton Gauer, observa que Mato Grosso ampliou significativamente sua capacidade estática de armazenagem nos últimos anos. Ainda assim, o crescimento da produção continua em ritmo superior.
“Hoje nós temos 50 milhões de capacidade estática. É um volume que se desenvolveu drasticamente ao longo dos últimos anos, mas a velocidade de crescimento da produção acaba sempre superando esse investimento”.
Conforme Gauer, o estado produz atualmente mais de 110 milhões de toneladas de grãos e possui déficit superior a 50 milhões de toneladas em capacidade de armazenagem. Para ele, qualquer dificuldade no transporte ou no escoamento amplia a preocupação dos produtores. “É realmente um período sensível. Qualquer falha de escoamento, desafio de transporte, logística… acaba sendo uma preocupação não só pensando no lado da produção, mas também no escoamento da próxima temporada”.
Na prática, o silo bolsa tem permitido que muitos agricultores mantenham a colheita mesmo quando os armazéns estão lotados ou o transporte desacelera. O produtor rural Flávio Kroling afirma que a tecnologia já faz parte da rotina da propriedade tanto na soja quanto no milho.
“A cada ano a gente produz mais, a capacidade estática é praticamente a mesma. A saída é uma só, silo bolsa”. Para ele, a ferramenta também amplia as possibilidades de comercialização. “É uma ferramenta que nos ajuda muito. Para quem não tem armazém, é uma maneira de guardar o milho e esperar preços melhores mais tarde”.
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