Uma doença fúngica identificada apenas durante a colheita tem preocupado produtores de milho em Mato Grosso. Em São José do Rio Claro, um agricultor já contabiliza prejuízo superior a R$ 100 mil nos primeiros talhões colhidos, enquanto pesquisadores buscam compreender o comportamento do patógeno e sua participação nas perdas registradas nas lavouras.
O problema ocorre em meio ao avanço da colheita da segunda safra. No município, dos cerca de 100 mil hectares cultivados com milho, aproximadamente 15% da área havia sido colhida até o momento da reportagem do projeto Mais Milho.
Apesar das boas condições climáticas registradas ao longo do ciclo, produtores relatam preocupação com a rentabilidade da cultura, pressionada pelos altos custos de produção e pelos preços considerados baixos para o cereal.
Além do cenário econômico, a descoberta da doença durante a retirada dos grãos do campo acendeu um sinal de alerta entre agricultores e pesquisadores. Como os sintomas não aparecem durante o desenvolvimento da planta, muitos casos só são identificados quando as espigas são abertas ou passam pela colheita mecanizada.

Milho avança, mas preocupação cresce
Em São José do Rio Claro, a maior parte dos produtores optou por respeitar a janela considerada adequada para o cultivo do milho. O receio de enfrentar perdas em uma safra de custos elevados fez com que muitos agricultores evitassem apostas fora do período recomendado.
Conforme o presidente do Sindicato Rural de São José do Rio Claro, Aparecido Rodrigues, uma produtividade abaixo do esperado pode comprometer a rentabilidade da atividade, “porque o custo está caro, e hoje você plantar uma lavoura e não produzir razoável você fica no vermelho”.
Ele explica que as características dos solos da região exigem ainda mais cautela na tomada de decisão. “Tem um agravante a mais aqui. Essa terra é mista e sente mais o sol, então você tem que tomar muito cuidado, se está fora da janela não adianta arriscar não”.
Quem ficou fora do período ideal buscou alternativas para ocupar as áreas, com culturas como feijão caupi, gergelim, sorgo e até braquiária para formação de matéria orgânica destinada à soja.
Apesar das margens apertadas, Aparecido destaca que a chegada das usinas de etanol de milho trouxe mais segurança para a comercialização da produção na região. “A gente tem que agradecer muito essas usinas de etanol de milho. Depois que entraram melhorou 100%. Antes você via aquelas pilhas de milho no tempo, ninguém comprava e quando comprava era por R$ 8, R$ 10 reais a saca”.

Problema só aparece na colheita
Entre os produtores que conseguiram plantar dentro da janela, a avaliação é positiva em relação ao clima. As chuvas e períodos de sol ocorreram em momentos favoráveis para o desenvolvimento da cultura, aumentando a expectativa por uma boa produtividade.
O agricultor Cleverson Bertamoni, que cultivou 1.550 hectares de milho nesta safra, afirma ao Canal Rural Mato Grosso que as condições climáticas foram melhores do que as registradas no ano passado. “O clima esse ano ajudou bem mais do que o ano passado, está sendo melhor, veio chuva na hora certa, choveu mais tarde, veio sol na hora certa“.
Mesmo com o bom desempenho das lavouras, a comercialização preocupa. Segundo ele, os preços atuais não acompanham a alta dos custos de produção, especialmente dos fertilizantes. “Se você não fez contrato futuro e resolver vender o milho da mão para boca, igual a gente fala, você vai pegar R$ 40 não paga o custo”.
A situação ficou ainda mais delicada quando a colheita começou. Em uma área de 230 hectares, os primeiros talhões apresentaram perdas estimadas em cerca de 19 sacas por hectare. O problema chamou a atenção porque não havia qualquer sinal visível durante o ciclo da cultura.
De acordo com o produtor, externamente as espigas aparentam normalidade, o que dificulta a identificação antecipada da doença. “A palha está sadia, se você não abre você não vê”.
Cleverson conta que os primeiros casos pareciam isolados, mas a incidência aumentou conforme a colheita avançou.
“Nós achávamos em uma espiga ou outra, a gente achava que o problema não iria ser tão grande a nível de pegar todos os talhões da fazenda”.
Como menos de 20% da área foi colhida até agora, ainda não é possível mensurar o tamanho total dos prejuízos. O produtor teme que o problema continue aparecendo nos próximos talhões e observa que a permanência do milho no campo parece favorecer o avanço da doença. “Não colhi nem 20% ainda da área, então essas perdas podem aumentar, a gente não pode dimensionar ainda”.
Ele relata que foram realizadas três aplicações de fungicidas ao longo do ciclo, incluindo uma aplicação preventiva, mas sem resultados satisfatórios. “O prejuízo nesses primeiros talhões já é superior a R$ 100 mil, fora que estamos só no começo”.

Fundação Rio Verde intensifica investigação
Diante dos relatos registrados em campo, a Fundação Rio Verde ampliou o monitoramento das áreas afetadas para entender melhor a ocorrência da doença e os danos observados nas espigas.
A pesquisadora Luana Belufi explica que a chamada “podridão salmão da espiga” está associada à presença de fungos que afetam diretamente os grãos e podem provocar sintomas característicos durante a fase final da cultura.
Um dos principais sinais observados é a coloração salmão que aparece na palha e também nos grãos das espigas comprometidas. “Um dos sinais que mais chamam a atenção é a formação dessa coloração salmão”.
Segundo a pesquisadora, a identificação correta é fundamental porque os sintomas podem ser confundidos com outras doenças já conhecidas pelos produtores. “É importante observar essa formação desse sinal avermelhado que é possível ver aqui nos grãos para diferenciar dos outros sintomas, dos outros patógenos que também podem estar ocorrendo ali no campo, como Fusarium e a Diplodia”, frisa à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Os estudos também buscam compreender quais fatores favorecem a ocorrência do problema e qual é a real participação desse fungo nos danos observados nas lavouras da região.
Conforme a pesquisadora Isabela Ulsenheimer, os prejuízos não se limitam à produtividade. “Nas espigas afetadas ocorre a deterioração desses grãos e o aumento da incidência desses grãos avariados, e isso resulta descontos na comercialização”.
Ela acrescenta que as equipes trabalham na caracterização dos sintomas e na compreensão da distribuição da doença nas regiões produtoras.
Diagnóstico é apontado como principal ferramenta
Enquanto as pesquisas avançam, a recomendação é que produtores e técnicos reforcem o monitoramento das áreas durante a colheita e observem atentamente as espigas com sinais de deterioração.
Os pesquisadores avaliam que o cenário ainda exige cautela e que a presença da doença pode estar relacionada a um conjunto de fatores, não necessariamente a um único agente causador.
Segundo Luana Belufi, o foco neste momento é ampliar o entendimento sobre o problema antes de associá-lo definitivamente a uma única causa. “Nesse momento mais importante do que associar o problema a um único fungo é compreender, estamos diante de um complexo de fatores e que possíveis agentes podem estar envolvidos”.
A pesquisadora reforça que a identificação correta dos sintomas continua sendo a principal ferramenta para orientar futuras estratégias de manejo e auxiliar a tomada de decisão dentro das propriedades. “O diagnóstico sempre é a melhor ferramenta para orientar qualquer tomada de decisão”.

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